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8/10/2021
Mente

Depressão na pandemia: será que eu preciso lidar com a doença sozinho?

Contar com uma rede de apoio é fundamental. Mas isso passa primeiramente pelo seu próprio autocuidado.

Camila Junqueira e Juliana Diniz

A pandemia de covid-19 transformou a vida de todo mundo. Para além da necessidade de nos adequarmos a uma nova rotina, cada um precisou encontrar as suas próprias ferramentas emocionais para lidar com a nova realidade. 


Para alguns, esse processo deixou aprendizados, mas também pode ter provocado algumas emoções pouco confortáveis: da ansiedade ao não saber o que esperar do futuro próximo ao medo por temer a saúde de seus entes queridos. 


Momentos difíceis são parte de nossa vida e, talvez, a pandemia de covid-19 tenha sido o primeiro grande luto vivido por muitas pessoas. 


É por isso que em contextos como esse é preciso exercitar a nossa resiliência, ou seja, ter em mente que nós somos capazes de navegar por contextos de estresse. 


Mas até que ponto a tristeza é um sentimento natural da nossa vida?


Faz parte de um exercício de autoobservação entender como podemos lidar com determinadas emoções complexas. Ou, ainda, reconhecer quais os tipos de pensamento que não conseguimos controlar. 


O mais importante nesse processo, porém, é saber que você não precisa lidar com tudo isso sozinho.

Quando a tristeza se torna depressão 


Como qualquer outra doença, a depressão é diagnosticada a partir de um conjunto de sintomas e do histórico da pessoa, de possíveis gatilhos que possam ter desencadeado o episódio depressivo e até da genética familiar. 


O sinal mais associado à doença é a tristeza profunda, mas não dá para classificar a doença a partir apenas desse sentimento. 


“A gente não pode tornar patológica uma emoção da vida que todo mundo tem, em várias situações. A diferença é que, na depressão, ela vem acompanhada de outros sintomas”, explica a médica da família Lilian Hupfeld Moreno, do Time de Saúde da Alice.


Entre esses sintomas, estão: alterações do sono, do apetite, falta de energia, dores no corpo, dificuldade de concentração e perda de libido.


Seja por um contexto de pandemia ou não, o fato é que a depressão é um dos transtornos de saúde mental que mais cresceram nos últimos meses. 


Uma pesquisa da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), feita em 2020 com 2.624 pessoas, identificou sintomas da depressão em mais de 90% delas.


Outro estudo, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), alerta para o impacto entre jovens: um em cada quatro adolescentes apresentou sintomas de depressão e ansiedade a partir de junho de 2020, quando a pandemia se intensificou.


O isolamento reforçou ainda algumas condições de saúde mental. “O ser humano é social por natureza, então muita gente sofreu por ficar absolutamente sozinha, ou por não ter a opção de sair de casa para evitar situações ruins com a família”, explica a psiquiatra Isabela Paixão, da comunidade de saúde da Alice. 


Como reconhecer os sinais da depressão


Engana-se quem pensa que a tristeza é o único sintoma da depressão. Pelo contrário, para muitas pessoas o que a doença causa é um extremo estado de apatia.


“É como se a pessoa passasse a ver o mundo com um filtro cinza. Ela se sente anestesiada”, ressalta Isabela Paixão. 


Esses sinais são causados por um desequilíbrio químico no cérebro, que afeta o funcionamento de alguns neurotransmissores, como a serotonina e noradrenalina. 


Ou seja, é uma condição do nosso organismo que não está normal, muito diferente de uma “frescura” ou “falta de vontade”, rótulos que quem convive com depressão já ouviu.


“O problema é que a gente não enxerga a causa. Quando você está em depressão, é como se estivesse com uma perna quebrada, com a qual ninguém te pediria para correr uma maratona. Não dá para exigir e esperar alguns comportamentos que a pessoa não vai conseguir ter”, aponta Lilian Hupfeld.

 

Esse desequilíbrio químico pode acontecer com ou sem a presença de um gatilho ou evento traumático que dá início ao episódio. 


O problema também não depende exclusivamente de uma predisposição genética - embora o histórico familiar aumente o risco. 


“O mais comum é a pessoa perceber que se sentiu diferente a partir de um certo momento da vida; é o que chamamos de momento de ruptura”, diz Isabela Paixão. 


Como lidar com a depressão


“Você precisa de uma rede de apoio na qual você confie, que esteja do seu lado, te ponha para cima, mas que, além de tudo, seja compreensiva. Nessas horas, a empatia e o acolhimento são essenciais”, explica Lilian Hupfeld. 


Conversar com pessoas próximas, mesmo que por meio de aplicativos ou videoconferências, pode te ajudar a ter um referencial externo de como você está.


Quando estiver só, preste atenção a como você desempenha atividades simples do dia a dia, como levantar da cama, arrumar-se para o trabalho e tomar banho. 


Se algo simples está pesado demais para você, é importante fazer essa observação e acionar sua rede de apoio.


Acima de tudo, é preciso ser gentil consigo mesmo e lembrar que o episódio depressivo tem um limite de duração - ele não vai durar para sempre. O seu cérebro requer um tempo para que se restabeleçam os níveis de neurotransmissores.


Aqui, algumas sugestões de pequenas gentilezas que você pode se ofertar quando todo o resto parece pesado demais


  • Retome a higiene pessoal

Quem está em depressão pode ter dificuldade até para as tarefas básicas do dia a dia. Comece com um pequeno objetivo por dia, para não se pressionar além do que consegue fazer. São medidas que, além de promover mais saúde e bem-estar, já faziam parte da rotina antes dos sintomas e podem melhorar a sua percepção de normalidade.


  • Tente respeitar horários de sono

Dá para quebrar em pequenas metas, como ir para a cama meia hora antes do habitual, assim como programar o despertador para tocar um pouco mais cedo todos os dias. “A questão do sono é muito importante para regularizar o humor, e a depressão é um tipo de transtorno de humor, portanto tem relação direta com o ciclo sono-vigília”, diz Lilian Hupfeld.

 

  • Mantenha contato com sua rede de apoio

Use a tecnologia para se comunicar com amigos e familiares, compartilhe o que está sentindo e evite se isolar completamente neste momento. Contar com o auxílio de pessoas próximas, além de ser terapêutico, pode te ajudar a superar as dificuldades que a depressão impõe na rotina e facilitar o processo de cura - desde que essa rede seja empática com você.


  • Procure sair de casa

Tomar um pouco de sol e estar em contato com a natureza são formas de movimentar a rotina e aumentar o bem-estar. Uma rápida caminhada no bairro já resolve, lembrando de estabelecer objetivos mais curtos. “Pensa que você vai andar a distância de um quarteirão. Se chegar no final do primeiro quarteirão e você se sentir bem para andar dois, você chegará em casa feliz, o que não aconteceria se a meta fosse maior e difícil de atingir”, sugere Isabela Paixão.


  • Coloque-se em movimento

Qualquer tipo de atividade física traz muitos benefícios para a melhora da depressão, pois aumenta no organismo os níveis de serotonina e outros neurotransmissores relacionados ao prazer. Também estimula novas conexões neurais capazes de reduzir os sintomas da doença, apontou um estudo recente publicado na plataforma científica Frontiers in Psychiatry. Isso não significa necessariamente fazer um programa de exercícios, com sequências e repetições. Vale se mexer em atividades não programadas, como cuidar do jardim ou levar o cachorro para passear. Quando estiver pronto e com mais disposição, procure alguma modalidade que seja moderada, mas também recreativa e da qual você goste. “O importante é manter uma regularidade, é você sentir que está se movimentando”, orienta Lilian Hupfeld.


Como ajudar um amigo ou familiar com sinais de depressão?


  • Identifique os sinais que a pessoa apresenta: se está com pouca energia, se não consegue mais cumprir tarefas, se está deixando de cuidar de si;
  • Converse com a pessoa. Com cuidado, explique o que você está enxergando nela e se disponha a ouvir o que ela tem a dizer;
  • Demonstre apoio e empatia. Não exija mais do que a pessoa consegue fazer e respeite o tempo e os limites dela;
  • Recomende acionar o Time de Saúde. Ter profissionais de saúde que podem orientar e avaliar a saúde mental da pessoa é o primeiro passo para investigar o que está acontecendo. Só um profissional da saúde é capaz de fazer o diagnóstico e indicar o melhor tratamento. 


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