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7/3/2022
Mente

Covid longa: entenda como a síndrome pode afetar a saúde mental

Ansiedade e estresse pós-traumáticos são um dos principais sintomas causados pela doença.

Priscila Carvalho

Passados quase dois anos desde os primeiros casos de coronavírus no Brasil, ainda não existe um consenso sobre quais são as sequelas provocadas pela doença no organismo. 

Uma das queixas mais comuns da atualidade é a chamada “covid longa”, um conjunto de sintomas que persiste por quatro semanas ou mais após a infecção.

“Os sintomas são  variados, podendo acometer todos os órgãos e sistemas”, destaca Igor Marinho, infectologista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina. 

De acordo com o especialista, os sinais mais comuns de quem sofre com a condição são fadiga, cefaleia, queda de cabelo, tosse persistente, diarreia, taquicardia e alterações neurológicas. 

Devido à persistência dos sintomas, a covid longa pode afetar diretamente a saúde mental e gerar um grande impacto emocional nos pacientes. A relação foi comprovada recentemente em um estudo publicado no periódico BMJ. 

O trabalho foi realizado com 154 mil pessoas que já tiveram a covid-19 ao longo da pandemia. Os pesquisadores compararam os danos psicológicos provocados pela infecção com aqueles que não sofreram com o coronavírus após um período de um ano.

Eles puderam observar que pacientes que foram infectados tinham 39% mais chances de serem diagnosticados com depressão e 35% com ansiedade.

Ainda, observaram que esses mesmos pacientes também tinham maior probabilidade de serem diagnosticados com estresse, além de apresentarem dificuldade em dormir. 

Um outro estudo, desenvolvido pela Universidade de São Paulo e publicado na revista científica General Hospital Psychiatry, mostrou resultados semelhantes.

Realizada com 425 adultos, a pesquisa indicou um aumento de transtornos psiquiátricos após a doença. 

Os pacientes foram avaliados entre seis a nove meses após receberem alta hospitalar. Durante o trabalho científico, foi levado em consideração casos graves, como internações em UTI, e também quadros moderados da covid-19.

Ao analisar os resultados, os médicos puderam observar que houve uma prevalência de transtorno mental comum em 32,2% do público avaliado. Já na população brasileira, esse número chegou a 26,8%.

Pós trauma e covid longa

Já é esperado um agravamento de sintomas psiquiátricos após infecções agudas.

No caso da covid longa, em que o paciente já teve a doença, mas sofre por muito tempo som sintomas relacionados ao coronavírus, a condição afeta diretamente a rotina, aumentando o risco de desenvolver estresse pós-traumático, quadros de ansiedade e depressão. 

Aline Alves, psicóloga cognitivo comportamental na Alice e neuropsicóloga, explica que é muito comum pessoas desenvolverem traumas e fobia social quando retomam as suas rotinas após um quadro intenso de covid. 

“São frequentes quadros de síndrome do pânico e pós trauma. A pessoa vai apresentando uma limitação de outros sentidos da vida e apresenta dificuldade nos relacionamentos afetivos”, diz.

A pessoa pode ainda querer evitar laboratórios, hospitais e outros ambientes que remetem às memórias enquanto esteve doente. 

A condição também pode se manifestar devido a um contexto indireto, que envolve traumas em relação ao isolamento, diminuição do convívio social e alteração no dia a dia.

A boa notícia é que existem medidas que diminuem os sintomas psicológicos e que auxiliam na melhora da saúde mental desses quadros. 

Como lidar com os efeitos emocionais da covid longa 

É fundamental acompanhar o desenvolvimento dos sintomas relacionados à covid longa, principalmente quando a doença afeta a rotina e faz com que o indivíduo não seja mais funcional. 

Existem práticas simples e tratamentos inovadores que podem auxiliar nesse processo, de acordo com Alves.

  1. Controle de pensamentos negativos

O método busca ajudar as pessoas a usarem respostas alternativas aos pensamentos negativos, como “não vou pensar nisso”, “não quero focar minha atenção nisso”. 

Todas as ações são direcionadas a situações que afastam oseventos negativos, justamente para diminuir quadros de ansiedade. 


  1. Racionalização

Torne concreto os pensamentos que geram medo e avalie se esses são, de fato, duradouros ou se vão terminar em um determinado prazo.

A especialista explica que é imprescindível se ater à realidade e contextualizar os fatos, e não direcionar o pensamento para determinada ação ou situação. 

  1. Exercícios físicos

A prática de atividade física faz com que ocorra a eliminação de diversos hormônios que são responsáveis pela sensação de prazer e bem-estar. 

Dessa forma, o organismo consegue responder de forma efetiva durante o período de tratamento.

  1. Psicoterapia

A pessoa deve procurar um profissional de saúde  quando quadros de transtornos mentais estiverem afetando diretamente sua rotina.

Isso envolve não conseguir se alimentar, se vestir, sair para trabalhar e outras situações incapacitantes. 

O psicólogo auxilia o paciente oferecendo um apoio emocional, além de auxiliar na organização de ideias e, em alguns casos, na tomada de decisões.

  1. Atendimento psiquiátrico 

Quando somente a terapia cognitivo comportamental não é suficiente, o terapeuta pode indicar ajuda psiquiátrica.

Quando isso ocorre, deve acontecer um tratamento em conjunto atrelado à psicoterapia e uso de medicamentos. 

  1. Novas ferramentas que auxiliam no tratamento

Além dos tratamentos convencionais e que já são feitos há anos nos hospitais e centros de saúde, recentemente, médicos observaram que novas técnicas também podem fazer efeito e ajudar quem sofre com covid longa.

Como um dos principais sintomas é a falta de memória e “confusão das ideias”, os especialistas estão testando tratamento chamados de reabilitação pós covid, reforça Alves. “Esses são direcionados no foco, hiperatividade e outras atividades que atrapalham a capacidade cognitiva do paciente.” 

Na parte intelectual, existem técnicas que dentro da neuropsicologia vão trabalhar o desenvolvimento da memória.

São exercícios que podem ser feitos por meio de aplicativos nos celulares e ajudam a melhorar a capacidade de memorização, por exemplo. “São treinos. Para fazer sinapses e desenvolver a memória por outro caminho”, explica. 

Há ainda exercícios ligados à hiperatividade, que oferecem treinos específicos para diminuir a ansiedade e outros transtornos mentais.


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